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O que Brexit, Donald Trump e Bernie Sanders tem a ver?

Nas últimas semanas uma notícia abalou as estruturas econômicas e políticas da Europa e do mundo: a população britânica votou pela saída do Reino Unido da União Europeia, com a esmagadora vantagem de mais de um milhão de votos.

As consequências políticas e econômicas certamente mudarão os eixos do planeta, entretanto o que desejo aqui ressaltar é como a campanha do “Brexit” se deu e as principais motivações na escolha dos britânicos.

Entre as marcas mais preponderantes da campanha estão: a alta abstenção dos mais jovens (57% dos mais jovens não votaram), a divisão interna dos dois mais tradicionais e importantes partidos (Trabalhista e Conservador), a pressão interna por melhorias nos serviços públicos (principalmente na saúde) e a presença de “estrelas políticas” carismáticas e/ou polêmicas, como o Ministro da Justiça Michael Gove, Boris Johnson, ex-prefeito de Londres e o líder do partido de extrema-direita (Ukip), Nigel Farage.

Nos Estados Unidos, Donald Trump, um excêntrico e polêmico bilionário, atropelou todos os candidatos do Partido Republicano (GOP), mesmo sem o apoio dos caciques tradicionais. Trump, a despeito de ser máquina de gafes, promete “Fazer a América Grande de novo” e ganhou o apoio da enorme massa conservadora a partir de uma mensagem simples e direta. O empresário é também uma celebridade, entre 2004 e 2015, foi o apresentador do programa “O Aprendiz”, grande sucesso na tv norte-americana.

No Partido Democrata Hillary Clinton sempre teve uma aura de favorita absoluta, com o apoio velado da Casa Branca e ungida como a candidata dos caciques partidários Entretanto, Bernie Sanders, um candidato declaradamente socialista, num país que sempre rejeitou quaisquer hipóteses mais à esquerda, tirou o sono (e vários delegados) da candidata do establishment.

Hillary venceu, mas foi Sanders quem motivou os mais jovens, principalmente a partir da negação do tradicional bipartidarismo norte-americano e com um discurso marcado pelo afastamento dos costumeiros temas abordados nos pleitos presidenciais dos Estados Unidos. Sanders abordou uma pauta que passa das mudanças climáticas à gratuidade do ensino superior e dos serviços de saúde.

Ao fim, o que o Brexit, a vitória de Trump no GOP e a ascensão de Bernie no Partido Democrata têm a ver? A negação da política tradicional, o questionamento do establishment são notadamente as maiores marcas, explícitas ou implícitas dessas três campanhas:

– A política tradicional britânica se perdeu na simples disputa pelo poder, que causou rachas nos dois principais partidos. Figuras carismáticas e até radicais, como Nigel Farage, ganharam destaque.

– Nos Estados Unidos a falta de unidade do GOP, bem como a falta de clareza no discurso direcionado ao americano médio, fez com que o eleitorado mais conservador se deslocasse para quem teve mais efetividade na comunicação: Trump.

– A vitória de Obama em 2008 foi a ruptura da base do Partido Democrata com o cacicado, contudo, após um governo que acenava para os dois lados, a forte presença de Bernie entre os mais jovens, mostrou que ainda há anseios de maiores mudanças e que o discurso da política tradicional é cada vez menos efetivo.

A política tradicional não pode mais deixar de falar dos problemas reais, com clareza e sem devaneios. A pura e simples disputa pelo poder, distancia a classe política da população e seus anseios. O establishment mudou, a fala do radical Farage no Parlamento Europeu é sintomática “Ukip costumava protestar contra o establishment. Agora o establishment protesta contra o Ukip. Alguma coisa aconteceu aqui.”

O sucesso da democracia depende da sua constante transformação e aperfeiçoamento. Na primeira metade do século XX Winston Churchill paradoxalmente falava isso ao afirmar que “A democracia é a pior de todas as formas de governo, excetuando-se as demais.”; na primeira eleição pós Constituição de 1988, Mario Covas invocava a “Radicalização da Democracia”.

Os questionamentos à política tradicional e ao establishment são universais, arrisco dizer que no Brasil a grande popularidade, especialmente nas redes sociais, de figuras como Jair Bolsonaro (PSC-RJ) é um exemplo implícito de questionamento ao status quó. A exortação vai à mesma linha de Fernando Henrique Cardoso: devemos reconectar a democracia aos anseios da população ou cairemos nas armadilhas do populismo e/ou do autoritarismo.