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Por Hellen Albuquerque

Enquanto escrevo este texto, uso botas pretas de cano alto – sempre sem salto – e um vestido longo azul, com estampa de flores. Ainda componho vários casacos, pois estamos em Curitiba e nada é perfeito. Já me acostumei a passar pela Rua XV e perceber as viradas de rosto. A primeira olhada é das usuais, para desviar do caminho, a seguida é uma avaliação. Julgamento.

De acordo com os manuais da moda “Como Usar”, alguém tão baixo como eu não poderia estar vestido assim. Não chego a 1,60m, peço ajuda para alcançar as prateleiras altas do supermercado – as vezes dou pulinhos, depende do meu humor – por isso ao usar saias ou vestidos longos, eu deveria compensar com um salto alto. Alongando minha silhueta. Dando a ilusão de ser algo que não sou: alta, esguia. Porque esse é o certo. Ou pelo menos é o que nos dizem os “Como usar”.

E são vários… Como usar calça: branca, colorida, de couro, flare, montaria. Como usar blusa: transparente, estampada, curta, no inverno. Sempre que surge uma tendência, muda a estação, falta criatividade, surge um “Como Usar”. São regras classificatórias que segmentam por altura, peso, cor de pele, formato do corpo, formato do rosto… Tudo, menos gosto.

O mais interessante, ou desinteressante de acordo com ponto de vista, é que ninguém sabe de onde cada uma das ditas regras vem – muito menos quem as escreve.

Foi por volta do século XV que homens e mulheres começaram a se distinguir na vestimenta, antes a diferença se restringia a acessórios e cabelos. Durante a Revolução Francesa (sempre os franceses) aqueles que não pertenciam a realeza se nomeavam sans culottes ou sem calções, peça característica do armário masculino monárquico feita de tecidos finos e sedosos, ao contrário dos camponeses que vestiam calças de algodão grosseiro.

Tal cenário de guerra exemplifica o vestuário como uma representação política, econômica e social.

No Decreto do Governo Revolucionário estava escrito:

“Nenhuma pessoa, de qualquer sexo, poderá obrigar nenhum cidadão a vestir-se de uma maneira determinada, sob pena de ser considerada e tratada como suspeita e perseguida como perturbadora da ordem pública”.

Ah, os franceses! Para Sartre, que filosofava apreciando croissants, a liberdade é inerente ao ser humano. Antes de ser qualquer outra coisa – médico, revolucionário, vítima dos blogs de moda – o ser humano é livre. A angústia surgiria na privação de tal essência, ou seja, eu me sentir malvestida, cometendo gravíssimas falhas fashion tem a ver com a repressão do meu direto de ser quem sou. Usar o que quero. Ser livre.

Em resumo, quer saber como usar? Do jeito que você quiser.