Um basta à corrupção!
Em meados do século XX ouvia-se, não raro, eleitores defendendo o seu candidato com a frase "ele rouba, mas faz". Isto serve para nos lembrarmos de que a corrupção na política era encarada com certa naturalidade. Não se discutia que os políticos deveriam "fazer" sem roubar! Esposas de deputados, viajando com passaporte diplomático, voltavam dos Estados Unidos com as malas abarrotadas de muamba para ser vendida a amigas no Brasil... e isso a poucos escandalizava.
Pelo que temos visto nos políticos contemporâneos do Congresso Nacional em Brasília, a corrupção chegou a níveis insuportáveis. Agora, contudo, a sociedade civil vem reagindo em vários quadrantes do país. Um exemplo a mencionar é o projeto "Ficha Limpa" que triunfou na Câmara dos Deputados, depois no Senado. Quem não terá notado, antes disso, a reação do deputado federal Paulo Maluf tentando mobilizar todos os seus aliados no objetivo de impedir o sucesso do projeto?
Em março do ano corrente, Maluf foi incluído na lista dos criminosos procurados pela Interpol, a polícia internacional. Três anos antes, em 2007, a justiça norte-americana já tinha determinado a prisão do deputado pelos crimes de roubo de dinheiro público em São Paulo, auxílio no desvio de dinheiro ilegal para Nova York, e por crimes de conspiração, conforme vimos relatado na edição de 19 de março de 2010 no jornal O Globo, e em todo o restante da imprensa no Brasil. Agora procurado em 181 países, se ele sair do Brasil e pisar numa daquelas nações, será preso imediatamente. No Brasil esteve atrás das grades por algum tempo, mas as leis frouxas do nosso país permitiram que fosse posto em liberdade, e ainda continuasse no cargo eletivo de deputado.
Não foi por nenhuma boa vontade do governo federal que o projeto "Ficha Limpa" prosperou. O líder do governo no Senado, Romero Jucá, sem saber que estava sendo gravado, declarou que não tinha nenhuma pressa na votação do projeto Ficha Limpa, porque o que interessava prioritariamente ao governo era o pré-sal. No dia seguinte à veiculação dessas declarações na imprensa escrita e televisionada, acuado pela indignação e clamor da sociedade, ele voltou atrás, dizendo que o governo tinha, sim, interesse em votar o tal projeto.
A corrupção grassa em todos os níveis. Na Assembleia Legislativa do Paraná o escândalo estourou com a descoberta de diversos ilícitos, dentre os quais a contratação de muitas centenas de "funcionários fantasmas", o desvio de rios de dinheiro público e a publicação de atos do Legislativo em diários secretos, avulsos e não numerados. A OAB do Paraná organizou uma série de atos públicos em Curitiba e outras cidades do Estado, de repúdio aos políticos corruptos e em prol da ética e transparência. O Ministério Público cobra a devolução do dinheiro desviado, o bloqueio dos bens dos acusados e o afastamento do presidente e de toda a Mesa Diretora da Assembleia.
O que mais impressiona, neste caso, é a cara lavada dos parlamentares acusados e o sorriso que alguns deles ostentam nas fotos publicadas em jornais. No Japão, país sério, quando ocorre um escândalo dessa natureza, os envolvidos praticam o suicídio. Na China, são condenados e fuzilados. No Brasil, os políticos criminosos sorriem em público e agarram-se desavergonhadamente às tetas do governo, na defesa dos seus ganhos ilícitos.
As manifestações de repúdio a esses vampiros da política, a esses sanguessugas da sociedade, não podem ser interrompidas. Seus nomes devem ser relacionados em placas gigantescas instaladas na capital paranaense, a começar pela Boca Maldita, para que os eleitores não se esqueçam dos políticos cínicos e ladrões do dinheiro público que aí estão, e nunca mais os escolham para representá-los em cargos eletivos.
Francisco Souto Neto é jornalista e advogado