A experiência de estudar gastronomia em diversos lugares do mundo deu a Gabriela Carvalho mais do que técnica. Fez com que ela passasse a se preocupar com todo o processo que envolve a profissão, desde a escolha dos ingredientes até a forma de preparo e degustação. A importância do contato com a natureza, de respeitar a sazonalidade e questões como cooperação, por exemplo, são levadas à risca pela chef. Tanto que recentemente levantou a bandeira de questões indígenas, reunindo ativistas e lideranças em seu restaurante para debater sobre vários temas, entre eles a cultura alimentar.

Gabriela é defensora categórica do slow food, movimento que propõe a trilogia de refeições longas, comidas saudáveis e ingredientes da estação. O Quintana Café e Restaurante, comandado por ela desde 2008, segue essa premissa. O cardápio desenvolvido pela chef dá prioridade para ingredientes frescos e também da horta que ela cultiva no local. A proposta é seguida à risca também dentro de casa e nos cuidados com a alimentação da família. Ela mantém uma horta no apartamento em que mora e o passeio por feiras orgânicas e os laços com produtores locais estão na rotina da cozinheira.

O contato com esse tipo de prática começou na adolescência quando, aos 15 anos, fez um intercâmbio em Oregon, nos EUA. Alguns anos depois, de volta a Curitiba, decidiu, com o apoio da família, voltar a estudar fora do país. O destino foi a faculdade Les Roches, nos Alpes Suíços, e o curso escolhido foi hotelaria.
Depois de formada, chegou a dar aulas na faculdade Endicott, em Boston (EUA), e a participar de cursos e projetos em hotéis e restaurantes pelo mundo, desenvolvendo-se como cozinheira. No Brasil, morou em estados, como Bahia, Ceará e São Paulo, mas foi no Paraná que decidiu plantar suas raízes.
A preocupação com a procedência dos ingredientes se estende para a forma de preparo e com os resíduos gerados. Tanto que no restaurante pratica o aproveitamento de cada alimento, utilizando 100% dos produtos, como caules, cascas e folhas, o que a levou a ser a embaixadora do movimento Gastronomia Responsável, idealizado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

FB: Porque escolheu a Av do Batel para instalação do seu restaurante? Alguma reivindicação para melhorias na via publica
Gabriela : A Avenida do Batel é um dos corações de Curitiba, e tem um significado muito forte. Além de sua importância histórica, na qual o bairro era caminho dos ciclos de erva-mate e do café, a avenida está na alma de muitos curitibanos. Depois de eu ter passado muitos anos fora do Brasil e de Curitiba, quando veio a possibilidade de abrir o restaurante, foi uma grande oportunidade poder ocupar essa localização nobre e especial.
Em relação à via pública, percebemos que um dos grandes problemas é com relação aos pedestres. É uma avenida muito movimentada, na qual as pessoas têm dificuldade de atravessar – com isso já presenciamos diversos acidentes. Além do alto nível de acidentes que acontecem na via, os mesmos geram problemas como falta de eletricidade em diversas ocasiões. Gostaríamos de ter uma via mais bem sinalizada, com fácil acesso a pedestres, que pode também evitar diversos outros problemas.

FB: Onde você busca a inspiração para a elaboração da culinária do Quintana Gastronomia? Comente os diferenciais.
Gabriela:- A vivência em países e com pessoas originais da Ásia, Europa, Américas e diversas outras regiões me marcaram por suas forças e diferenças culturais. Tudo isso que já vivi e com quem convivi em minha vida pessoal e profissional são a minha principal fonte de inspiração. Aliado a isso, levo comigo também as histórias e vivências de membros da minha equipe, que colaboram com seu trabalho e criatividade há muitos anos.Na mesa gastronômica que servimos no Quintana, cada dia ganha uma inspiração gastronômica diferente, o que me permite viajar por todos esses lugares pelos quais já passei, até outros ainda mais distantes. Isso também permite que seja possível utilizar ingredientes sempre frescos, produzidos localmente, orgânicos, e com isso trazer esse toque especial aos sabores diários.

FB: Comente sobre o projeto sustentável de reaproveitamento de alimentos e adubo orgânico
Gabriela: -Todos os dias buscamos causar o menor impacto ao meio ambiente, e procurar novas soluções sustentáveis para preservar o que está ao nosso redor. Atualmente, trabalhamos com o aproveitamento integral dos alimentos, que evita o desperdício, e destinamos os resíduos orgânicos para a compostagem, feita em parte em nosso jardim, e também a reciclagem mais eficiente. Com isso, diminuímos nossa produção de lixo, o que é muito importante para a sustentabilidade e vida do planeta. Reaproveitamos água da chuva para climatizar o EcoDeck, cultivamos 9 colméias de abelhas nativas sem ferrão, e caminhamos sempre ao lado da natureza, conhecendo cada vez mais e buscando soluções cada vez melhores.

FB: Como consegue conciliar a vida de empresária , chef de cozinha e mãe agora do segundo filho?
Gabriela: -É importante fazer o que ama, ou buscar amor naquilo que se faz. Outro ponto que sempre me ajuda é ter um time de pessoas incríveis ao meu lado, que permitam que o trabalho tenha continuidade, eu estando presente ou não. Terapia também sempre ajuda (risos), e também ter a certeza de que nossas ações se transformam em realizações. Busco sempre descobrir a minha missão nesse mundo – quando entendemos que existe algo muito maior por trás de tudo, os problemas que parecem gigantes tornam-se triviais e mais fáceis de encarar.